quarta-feira, 26 de junho de 2013

Esquecer


Câmbio.
Ele para na frente do reflexo do espelho, abre a boca em um sorriso de careta e se pergunta porque precisa de dentes bonitos.
O nome dele não é importante, você só precisa saber que ele nunca entendeu porque precisava ser feliz.
O sorriso é o Cartão Postal de uma pessoa, eles dizem.
Ele não sabe porque precisa de um cartão postal.
Ele abre a torneira e deixa a água escorrer sem querer entender o porque.
Ele nunca entendeu porque não conseguia.
Porque ele precisa de uma pele lisinha, ele pergunta.
Porque ele precisa de um corte de cabelo novo, ele pergunta.
Ele fecha a torneira.
Porque ele precisa comprar roupas, ele pergunta.
Você só precisa jogar suas mãos pro céus, agradecer e saber que ele não é você.
Porque diabos tem tantos espelhos nessa casa, ele pergunta.
Ele mora ali a vida toda e só consegue lembrar da agonia que sente quando as gotas gigantes de chuva começam a escorrer pela calha fazendo aquele barulho que te faz querer morrer.
Porque aquela calha existe desse jeito na chuva? Ele odeia chuva. 
Ele poderia estar só pensando sobre motivos pra ser bonito, mas ele não consegue.
Porque enquanto ele tem que se livrar das acnes, as fórmulas matemáticas que ele aprendeu na oitava série vão tentando roubar espaço.
No intervalo de tempo em que ele precisa entender qual roupa vai usar, o dia em que ele caiu de bicicleta vem valsando em cima do seu closet novinho em folha que ele teria se não fosse aquela coisa.
Aquela coisa, sabe. Aquela coisa que não permite que ele faça nada sem um fantasma do lado.
Hipertimesia, ele repete.
Ele ouviu essa palavra 16 anos atrás, de um médico velho de avental sujo de mostarda, que disse pra sua mãe algo sobre uma doença que não te deixa esquecer nunca das coisas.
Algo como memória fotográfica.  Algo como nunca poder esquecer sentimentos e sensações.  Algo como nunca poder esquecer a dor e a angústia.
Palavras flutuantes te deixando louco.
Um grande chute do muleque da quarta série, flutuando.
Aquela vez em que tirou uma nota baixa, flutuando.
Aquela menina com rosto bonito de flor, flutuando.
"Você é feio e eu não gosto de você", saindo daquela boca de flor, flutuando.
"Que dentes estranhos", a boca de flor floreando, flutuando.
Aquela vez que chorou tão baixo, que nem ele mesmo podia ouvir, flutuando.
Seu coração despedaçado em chamas, flutuando.
Ele senta e quase deita.
Tudo flutua e brilha naquele canto triste.
Menos uma solução que deixem as coisas melhores.
Menos ele, com lembranças-gatilho.
Menos ele entendendo que as flores são bonitas em qualquer lugar do mundo.
Menos ele vivendo eternamente no barco do medo.
Vivendo tudo de novo. E de novo. E de novo.
A vida é basicamente sobre esquecer. Nada pode ser pior do que não poder esquecer.
Começou a chover.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Endorfinado

Repare bem no que não digo.
É como o som do silêncio, só que mais forte.
Uma sonante entre notas musicais marasmas.
As vezes não vale a pena ouvir de novo.
Mania de dar rasteira no destino.
As velhas convenções sempre estiveram certas. Nosso infinito particular, no final, é tudo aquilo que pensamos que ele não pode ser.
O nosso esforço acumula mais esforço.
E tudo é uma escala de dois gráficos reversos.
É precário.
É como querer subir prédios de escada.
O emocionante de subir mil degraus não é o suor empapando a sua blusa.
O emocionante é chegar.
É tudo rarefeito e é tórrido ver alguém indo embora com um pedaço seu.
Correndo e subindo.
O nome disso é frio.
Levante-se. Ande.
O nome disso é dor.
Acostume-se.
Rabiscaram naquele muro "Seu amor é uma mentira, minha dor é que é de verdade".
Eles esqueceram.
Quem se lembra dos navios que não afundam?