domingo, 17 de dezembro de 2017

Não sei

Quando isso vai parar eu não sei.
Toda vez que eu piso nesse chão enquanto cada parte do que foi sai rasgando o céu da boca, estourando os dentes, virando meu rosto do avesso, eu não sei.
Os nós dos meus dedos querem doer  toda vez que o passado estoura meus dentes e rasga meu céu da boca.
Eu não sei quando eu vou parar de secar meus olhos. Esfregar meus olhos. Cuspir na minha própria cara.
Eu procuro saber mesmo sentindo o pulso das artérias batendo fundo no pescoço, suando fundo pelo pescoço e empapando a gola da camiseta. Isso é tudo nervoso.
Eu nunca sei quando mas sei de alguma coisa quando encaro a lâmina brilhante da 758a e vejo meu rosto do avesso com minha boca distorcida no metálico do brilho mexendo algo como "Cara, eu tô cansada".
Cara, eu tô cansada.
Eu sei só quando quero mastigar meu próprio olho ardido, a boca aberta empurrando ar pra fora pra molhar a cara de água salgada.
Eu não sei quando isso de chorar água salgada, empapando a gola da camiseta, esfregando o nó dos dedos na 758a acontece.
Eu não faço ideia.
Você me deixou pra morrer sozinha.
A história de tudo o que da errado é um negócio que quando vai parar, eu não sei.
Quando esse chacoalhar maldito infinito unânime e eterno  da ida e do retorno vai ser menor, eu não sei.
Quando eu vou parar de rir na frente da lâmina e do dente. Quando que o sal do choro vai colar na pele retorcida do meu rosto virado do avesso pelo passado do abraço.
Tá caindo o mundo lá fora, o céu tá rasgando em 12 partes. O céu da boca estronda e a gola da minha camiseta já virou um rio de desgosto.
Eu não faço ideia de quando parar.