quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Do dia 10 de Fevereiro de 2019

Isso não é sobre você.
Isso é sobre eu mesma pensando em machucar você. Eu não posso machucar você então eu me machuco pensando sobre você.
Já faz 1001 dias disso que não é sobre você.
1001 noite iguais a do conto persa. Eu gosto dessa ironia.
A história das 1001 noites narra a estratégia de uma mulher chamada Sherazade pra se manter viva por ter se casado com o rei Shahryar que casa todos os dias com uma mulher e a mata pela noite. Sherazade conta uma história incompleta toda noite pra que o rei não a mate por querer ouvir o fim da história.
Então, Sherazade é apresentada com dois atributos, a inteligência e a beleza.
Eu sou a Sherazade, só que ao contrário. Meus atributos são a violência e o desespero.
Entao, Sherazade passa todas as 1001 noites elaborando uma história pra não morrer. Pensa que terrível.
Eu passo 1001 dias elaborando um motivo pra não matar todo mundo. Pra não arrancar meus cabelos da cabeça de nervoso.
1001 dias divididos entre querer esfolar seu rosto bege até o último folículo de pele ou arrancar a minha própria pele de tanto chorar  e suar de desespero.
1001 dias.
Você pode ser o rei Shahryar se você quiser. A diferença entre você e o rei persa é que você me mata todas as noites. A sua memória envenenou uma porção de raízes que felizmente estão mortas agora.
Essa é a última vez que eu escrevo sobre eu pensando sobre você. 
Essa é a última vez que você vai me matar. Eu não ressuscito amanhã pra te contar uma nova história.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Raiva


Quando você é atestado como temperamentalmente instável, significa que você pode socar um rostinho até a bochecha do rostinho abrir.
Daí que você vai pra um tratamento contra a raiva.
Uma das regras de se fazer um tratamento contra explosão de raiva é interiorizar que você não pode dar uma lição em ninguém.
Tem que esquecer esse negócio de dar lição nas pessoas.
Todo mundo quer dar alguma lição em alguém.
Você é tratado como radiação alta. Radiação gama
As pessoas são um pedaço de lixo mas você não pode matar o coleguinha.
Você não pode matar o coleguinha.
Você não pode matar.
"Matar... não pode." Balançando o indicador no símbolo universal do não .
 Como se fosse uma recomendação pra não comer comida gordurosa.
Uma das regras de se fazer tratamento contra explosão de raiva é perceber que tudo acontece muito rápido então você precisa estar em alerta.
"Você não pode matar as pessoas." e não é como se você não soubesse disso.
Então quando você trata sua raiva com alguém que vai treinar pra se controlar - que é sempre um treinador de luta; é assim que você descarrega raiva - essa pessoa te olha como se você fosse arrancar a orelha dele com o dente.
Assim sem mais.
"Você não pode matar o colega."
Como se você fosse chutar a patela dele até ela parar do outro lado.
"Talvez seja por isso...já pensou?"
Como se você pudesse arrancar todos os fios de cabelo de alguém até só sobrar uma careca cheia de porinhos de sangue.
"Não."
Andando no tatame com proteção dentária.
"Talvez"
Como se você fosse fazer tudo isso com você mesmo.
"Talvez seja por isso que ninguém gosta de você por muito tempo" 
E você já tá no chão com o braço esticado.
"Talvez se você tentar ser mais calma." 
Violencia pela paz pode.
"Não existe calma".
Violência pela violência e te recomendam controlar a raiva.
Segurar a onda.
Dar uma maneirada.
"O mundo não vai ser correto."
Estirada no chão.
Com raiva

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Meditação

Meditação.
Sinta todo o seu corpo. 
A solução vai ser meditar por pelo menos 15 minutos antes de dormir.
Visualize cada parte dos seus ombros, pescoço e cabeça.
Você senta com os joelhos dobrados pra fora ou faz qualquer formato com suas pernas e chama essa porra de "posição de lótus".
Agora solte todo o peso.
Buda, Shiva. Todos eles fizeram perninha de índio.
Sincronize sua inspiração com sua expiração.
Essa coisa toda com as pernas, dizem, serve pra melhorar a respiração. O fluxo da respiração. O caminho da respiração.
Inspire por 4 segundos.
Não é foder até sangrar que te vai te aliviar, é respirar.
Expire por 4 segundos. 
Buda não fodeu com ninguém. Nem uma só trepadinha.
Se imagine dentro da água de uma praia. 
Ele respirava e isso resolvia todo.
A água são os seus pensamentos.
Meditar vai ser esse último recurso depois de quase quebrar a porta de casa no grito.
Saia dessa água e sinta que você está deixando os pensamentos preocupantes para trás.
Você vai sentar na sua cama porque o chão tá todo sujo de coisa que não dá tempo de limpar e fingir que você pode tentar se livrar do desespero baforando no seu cangote.
Sente na areia da praia e veja seus pensamentos de fora, sem que eles possam interferir em você.
15 minutos por dia e, eles dizem, você vai ser curado.
Inspire por 4 segundos. O segredo todo é respirar.
Você senta como os grandes sagrados usados por não sei quantas mil religiões orientais e tudo é capaz de se alinhar.
Expire por 4 segundos.
Sua ansiedade, sua insônia. Seu beicinho tremendo de agonia quase todo dia.
Sinta a brisa da praia.
Quase o tempo todo. Sua frustração, sua raiva.
Sinta a areia quente nos pés. 
Sua vontade de matar alguém.
Ouça de fora a música das ondas que são os seus pensamentos. 
Sua vontade de socar a cara do buda.
Você faz parte da vida.
Sidarta, o nome do buda. Reage Sidarta.
A vida é maior que tudo isso.
Passividade do caralho, Buda.
Abrace a vida.
Não tá resolvendo porra nenhuma.
Inspire.
Minha religião é o desespero.
Expire.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Um conto: Decomposição

Ele não limpa esse quarto porque tem dias que só dá pra esfregar a mão e mais nada.
Tem dia que só dá pra sofrer.
Ele pega em um estojo de canetas e percebe a desgraça nas manchas de mofo cobrindo o couro preto como pomada em bunda de neném.
Uma camada lisinha, diametralmente perfeita e verde.
 Verde mofo.
'Mas mofo só não cresce em comida?', ele pergunta dentro da cabeça.
'Acho que eu acostumei com o cheiro'.
Acostumado.
Tem aquele exemplo que todo mundo usa pra enfeitar qualquer conversa sobre se acostumar: O sapo e a panela de água quente.
'Ele serve bem', ele pensa. O exemplo. A história do sapo e da panela fervendo.
Você sabe, certo?
'Todo mundo já ouviu essa história de algum velho que goste de livros de auto-ajuda ou de alguma professora que leia Augusto Cury', na cabeça.
Quando você joga o sapo em uma panela fervendo, ele pula. Diferente de você colocar o sapo em uma panela com água fria e ir aumentando a temperatura aos poucos. O sapo se acostuma e não repara a água esquentando e quando percebe já está fervendo quase morto.
Então, é exatamente isso.
O quarto inteiro tem uma película de fungo em cima de coisas como roupas. Coisas como livros. Coisas como uma casca de mamão comido.
O sapo na água fresquinha.
Aquelas bolinhas pequenas e médias criando crostinhas verdes, fazendo desenhos.
'Eu durmo aqui todos os dias, cara', dentro da cabeça.
Mofo é fungo. Fungo são decompositores.
'Quando que isso começou a brotar aqui?', na cabeça.
Milhares de decompositores. Decompositores decompondo o cômodo todo.
Ele só entende como chegou nesse estado pensando no exemplo podre do sapo.
'Tem eu e o sapo', na cabeça.
A médica disse que faz parte do processo.Não tem produção de serotonina. Às vezes nem banho você consegue tomar, quem dirá pegar desinfetante pra esfregar ladrilho de chão.
''Mas que merda de metáfora é essa?', na cabeça.
Ele não limpa o quarto há dias porque tem vezes que só dá pra querer morrer.
'Eles estão me decompondo', na cabeça.
O sapo nadando morninho.
O fungo vai 'comendo' resíduo.
Tudo o que o fungo come já foi vivo antes de estar pronto pra ser comido.
Mofo sobe em cima de cadáver.
'Eu sou um residuo', dentro da cabeça.
A água ficando quentinha, o sapo tranquilo morninho.
O travesseiro fede. O ar é vinagrento.
'Pronto pra terminar de ser morto', na cabeça.
Ele passa mais da metade do dia dentro de um quarto que parece abrigar um morto.
Um morto que esfrega as mãos.
O sapo cozinhando.
 'Esse fungo só tá esperando eu parar de me mexer por mais de 15 horas.' na cabeça.
O sapo derretendo.
Mas tem dias que só dá pra socar a parede até a pele em cima do ossinho metacarpo sangrar.
O sapo grudando no metal da panela evaporando água.
'Eu tô enterrado no meio do mofo', na cabeça.
O mofo vai comendo só aquilo que está em decomposição.
O sapo dissolvido, afogado na própria pele. Borbulhando. Morto
Ele deitado. Dissolvido.
'Tem dia que não dá pra ficar na água fria', na cabeça.
Borbulhando.
Já foi vivo agora não vive mais.
Afogado.
'Daqui a pouco esse mofo sobe em cima de mim', na cabeça.
Borbulhando.
'Eu sei qual é a desse sapo filha da puta', na cabeça.
A água já evaporou há muito tempo.
'Eu e o sapo', na cabeça.
Morto.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Cínico

A sensação é de algo fritando no meio do tórax.
Uns são pra dormir e outros pra acordar. 
Eles me disseram que um dia o andar acontece.
 O foda é que frustração é metástase da espera que não façam com você o que você não faz com ninguém.
Um passo.
"Ninguém" vai fazer e você não vai entender. Nunca vai entender. E eles vão continuar fazendo.
É só forçar a canela pra frente mais um pouco. 
"Mas porque caralhos você tá fazendo isso?"
Sorriso.  É um sadismo do caralho.
Cínico.
Todo cínico que você encontrar na vida vai ser um apocalipse.
É só levantar o joelho. 
A porra dum apocalipse.
Um fim de mundo. Um barranco que se escala toda vez.
"Esses aqui são pra dormir, esses aqui são pra acordar."
Eles vão continuar fazendo coisas que você não faria. Sorrindo fazendo coisas que você não faria, inclusive sorrir de novo.
É só levantar o pé.
A humanidade acontecendo dentro dos seus olhos vai colapsando. Apocalipsando. Eclipsando. 
É só encostar no chão. 
Você vai morrer na estréia. Na estreia do que você nunca fez. Na estreia do que você nunca fará. Num sorriso que você sempre vai lembrar. Morto na estreia com um sorriso cínico grudado como tatuagem.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Enrolada em merda

Eu tenho tanta raiva que eu não tenho mais nada.
Quando chego nesse ponto é como se eu saísse de um cetim branco por um buraco e caísse no chão como um aborto cheio de merda enrolada.
Paz de espírito, perturbação. Metaforiza o que quiser.
O cheiro do lugar. Eu só sinto chegando.
O frio abraça enquanto tudo que não existe começa a não existir mais.
E quando tudo começa a não existir é grande como a gente imagina que só Deus seja. E Deus não é.
Não dá pra entrar mais nada, só sair.
Quando é que chega a parte em que alguém me enrola num pano e me faz chorar?
Alguém me disse pra não esperar.
Não tem mais nada pra acontecer. Tudo já foi. Tudo que será já foi.
Ninguém vai te bater pra você chorar.
Não tem mais nada aqui.
Ou apodrece ou cresce. Mas hoje eu não quero solução.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Não sei

Quando isso vai parar eu não sei.
Toda vez que eu piso nesse chão enquanto cada parte do que foi sai rasgando o céu da boca, estourando os dentes, virando meu rosto do avesso, eu não sei.
Os nós dos meus dedos querem doer  toda vez que o passado estoura meus dentes e rasga meu céu da boca.
Eu não sei quando eu vou parar de secar meus olhos. Esfregar meus olhos. Cuspir na minha própria cara.
Eu procuro saber mesmo sentindo o pulso das artérias batendo fundo no pescoço, suando fundo pelo pescoço e empapando a gola da camiseta. Isso é tudo nervoso.
Eu nunca sei quando mas sei de alguma coisa quando encaro a lâmina brilhante da 758a e vejo meu rosto do avesso com minha boca distorcida no metálico do brilho mexendo algo como "Cara, eu tô cansada".
Cara, eu tô cansada.
Eu sei só quando quero mastigar meu próprio olho ardido, a boca aberta empurrando ar pra fora pra molhar a cara de água salgada.
Eu não sei quando isso de chorar água salgada, empapando a gola da camiseta, esfregando o nó dos dedos na 758a acontece.
Eu não faço ideia.
Você me deixou pra morrer sozinha.
A história de tudo o que da errado é um negócio que quando vai parar, eu não sei.
Quando esse chacoalhar maldito infinito unânime e eterno  da ida e do retorno vai ser menor, eu não sei.
Quando eu vou parar de rir na frente da lâmina e do dente. Quando que o sal do choro vai colar na pele retorcida do meu rosto virado do avesso pelo passado do abraço.
Tá caindo o mundo lá fora, o céu tá rasgando em 12 partes. O céu da boca estronda e a gola da minha camiseta já virou um rio de desgosto.
Eu não faço ideia de quando parar.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Horizontal

Uma vida na horizontal.
A vida na horizontal acontece quando você deita.
Mas não é só um deitar de cansaço.
A vida na horizontal é aquela onde você só existe quando enverga.
Quando a madeira molha e entorta. Quando aquela faca vagabunda que você usa pra qualquer coisa dobra por causa do atrito.
O resto é hiato.
Você nem lembra mais como era aquela madeira reta e envernizada. Lisinha e com propósito. Você nem lembra mais da faca cortando um pão, servindo pra alguma coisa.
Você só vê que entorta e é mais ou menos assim que tudo vai passar a funcionar. Torto.
Essa é a vida na horizontal.
O que importa é o momento da queda.
O que importa é quando estraga.
O vertical é só uma lembrança amarronzada.
A vida não é a voz do homem bonito na vertical te pedindo pra não piorar as coisas. A vida é o pulso fechado ralando no colchão pensando que o homem bonito não tem que te pedir nada.
Você só deita e a vida é um intervalo entre uma deitada e outra.
É o tamanho do círculo de lágrima e coriza na fronha do travesseiro.
É a dor que fica no braço do peso do corpo em cima.
Tudo gira ao redor da deitada. Tudo caminha pro retorno ao grau 0.
O levantar é só pra colher mais contexto pra babar de raiva e tristeza em cima do catarro azedo da deitada anterior no travesseiro.  
O Horizonte, em definição, é uma visão ilimitada do infinito.
A vida na horizontal é uma visão ilimitada da tragédia.
De um lado pro outro.

Até ficar de pé ou até morrer.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Seu Geraldo, Lucas e Iraci

Tudo é sobre nós porque somos absoluta e irrevogavelmente egoístas mas, no final, o que Você e Eu consideramos platéia é, na verdade e também......Nós.
Quer dizer: Tudo é você [ eu ] mas você [ eu ] na verdade é um coletivo de outros que compõe aquilo que você vive.
Não há plateia.
Todos eles somos nós.
Uma parte distribuída e atribuída. Um resquício da linha da nossa vida.
Eu pego o mesmo ônibus, no mesmo lugar, religiosamente, todos os dias úteis da semana a 5 anos. Desde o começo dos 5 anos dos quais pego esse ônibus, convivo pelo menos 20 minutos com Seu Geraldo. Seu Geraldo é um senhor que vende lanches no ponto da volta na parte da noite.
20 minutos por dia.
20 minutos que eu fico em pé, fazendo o que o paulista faz de melhor, fila, esperando o ônibus.
5 dias por semana. A 5 anos.
Seu Geraldo não tem ideia mas conviveu comigo em pelo menos 4 ou 5 momentos de grande importância, os "cracks", na minha vida. Tristes ou saudosos.
Ele é um par de olhos que captura a minha imagem (tanto quanto eu capturo a dele), triste ou alegre.
Nunca alegre. Agitada, talvez.
Eu frequento a mesma pizzaria a uns 7 anos. Uma vez por mês. 4 horas por vez.
O garçom que me atende e serve é sempre o Lucas. Lucas deve ser 4 ou 5 anos mais velho que eu. Lucas já viu, pelo menos uns 6 ou 7 cracks da minha vida.
Lucas me serviu [ e serve ] na alegria e na tristeza.
Lucas não sabe mas, por vezes, foi ele o primeiro a me olhar depois de uma grande crise.
Lucas teve a mão que tirou o copo que eu encarava pensando em qualquer coisa grande ou pequena.
Eu compro um refrigerante [ ou qualquer coisa de por na boca ] a 2 anos e meio, 3 vezes por semana, por uns 10 minutos com Iraci. Iraci tem uma bancada móvel dentro da faculdade.
Iraci já viu uns 3 cracks da minha vida. Iraci foi a pessoa que perguntou pra mim o que eu queria quando minha cabeça partia em zilhões de pedaços e solidão assistida. "Pepsi ou Coca dessa vez?"
Paz, Iraci. Paz.
Eles são parte da longa desgraça.
Você é sua platéia. O que você vê nos olhos dos outros que te veem é o show.
O show da tragédia.
Os outros. Gente que as vezes não sabemos o nome....eles não são os outros. Eles são nós.
Eu olho pra eles e vejo o looping da minha vida. Tragédia. Riso.
Vi os três nesse espaço de dois dias. [Dominho, Segunda. 7/8 de Maio de 2017]
Não existe platéia. Só existe um nós.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Perdão e a minha cortina

Tão certo quanto o rasgo na cortina do meu quarto é o fato de que eu não fui projetada pra perdoar você. Seja você quem for.
Tão evidente quanto a minha raiva por gente que só conversa comigo pra massagear o ego fodido é o fato de que eu sou incapaz de te liberar da merda que você me fez. Seja ela o que for.
Eu já fui uma pessoa dada ao perdão mas isso agora está tão longe de mim quanto a possibilidade de que a minha cortina se remende sozinha. Não vai acontecer.
Eu te odeio tanto. Ainda bem que você não lê essa merda. 
Esse lance de energia...você só pode estar brincando com a minha cara.
E daí que Jesus amou quem estraçalhou a carne das costas dele? E eu com o fato de que o Papa João Paulo II perdoou quem deu um tiro nas tripas dele?
O que eu deveria fazer? Premiar o injusto? Não me diz que você acha tudo isso minimamente certo.
É um belo teatro, admito. Mas, falso. Tão falso quanto a minha vontade de pegar a agulha e costurar o rasgo da minha cortina.
Perdão é premiar a injustiça.
E daí que quem "sofre" é quem não perdoa?
"Não perdoar faz com que você tenha câncer". Pois bote esse câncer e o sofrimento tudo junto na conta de quem cometeu o ato.
As pessoas ferem porque sabem que isso é premiado mais tarde com o perdão. A culpa é de quem fez isso comigo. Com você.
"Eu errei mas me arrependo."
Que pena. Não errasse.
A pena que eu tenho de você é menor do que o buraco da agulha que eu passo a linha preta que vai costurar o arrombo da minha cortina.
Além da injustiça eu deveria deixar a pessoa viver sem nenhum tipo de punição?
Quer dizer então que se cospe na cara das pessoas e mesmo assim se espera que tudo esteja bem depois de uma semana?
 Bom...pode acontecer. Tanto quanto eu acertar a ordem certa dos pontos que precisam ser dados no buraco da minha cortina. Comigo não.
A falha faz do ódio o juiz eterno.
Eterno, tanto quanto o buraco amarrado de linha da minha cortina que nunca mais será a mesma.
Eu nunca vou perdoar você e isso é culpa sua.