sexta-feira, 22 de julho de 2016

"Bons momentos"

O grande problema de guardar os bons momentos que se teve em alguma parte da vida é saber, acima de tudo, que eles estão mortos. Qual a utilidade da lembrança? É sentir, através de uma experiência passada, uma sensação produzida por algo ou alguém [sempre é alguém], que não existe mais. 
Não existe mais.
Não no mesmo lugar que você.
Não existe mais no mesmo sentimento que você.
Não existe mais. 
Morto.
Não existe mais te esperando depois da 00:00.
Não existe mais em um sábado a tarde.
Não existe mais dormindo na sua  cama.
Não existe mais sorrindo.
Morto.  Rindo ou abraçado com alguém que não é você então, morto.
Toda essa morte pode acontecer no exato momento em que você come um pão de queijo, vai por mim. Isso é pra fazer sentido então, se concentre. 
As coisas podem deixar de existir e se tornarem lembrança enquanto você estiver tomando sorvete também.Você precisa se esforçar.
Bom, de qualquer forma, você não pode simplesmente escolher não levar os “bons momentos”.
Eles são como um brinde involuntário e obrigatório de muito mal gosto que a vida te dá.
Você escolheu essa cicatriz aí no braço? Acho que não. “Bons momentos” são a mesma coisa. Não me pergunte qual a sensação de carrega-los. “Bons momentos”, eu já te expliquei, são coisas mortas. Talvez você saiba por experiência própria.
Risos, abraços, cheiros e essas coisas de gente mentirosa. 
Dentro de uma sacolinha. Onde você carrega os seus? 
Andar pra cima e pra baixo com a sacolinha cheia de tempo morto.
Cheia de coisa. Todas essas coisas como voodoos dos quais eu só tenho o protótipo.
Todas essas coisas acontecendo em algum outro lugar que só existe porque eu não estou lá. 
Nós não estamos mais lá.