O grande problema de guardar os bons momentos que se teve em
alguma parte da vida é saber, acima de tudo, que eles estão mortos. Qual a
utilidade da lembrança? É sentir, através de uma experiência passada, uma
sensação produzida por algo ou alguém [sempre é alguém], que não existe mais.
Não existe mais.
Não no mesmo lugar que você.
Não existe mais no mesmo
sentimento que você.
Não existe mais.
Morto.
Não existe mais te esperando depois da 00:00.
Não existe mais em um sábado a tarde.
Não existe mais dormindo na sua cama.
Não existe mais sorrindo.
Morto. Rindo ou
abraçado com alguém que não é você então, morto.
Toda essa morte pode acontecer no exato momento em que você
come um pão de queijo, vai por mim. Isso é pra fazer sentido então, se
concentre.
As coisas podem
deixar de existir e se tornarem lembrança enquanto você estiver tomando sorvete
também.Você precisa se esforçar.
Bom, de qualquer forma, você não pode simplesmente escolher não levar os “bons
momentos”.
Eles são como um brinde involuntário e obrigatório de muito
mal gosto que a vida te dá.
Você escolheu essa cicatriz aí no braço? Acho que não. “Bons
momentos” são a mesma coisa. Não me pergunte qual
a sensação de carrega-los. “Bons momentos”, eu já te expliquei, são coisas
mortas. Talvez você saiba por experiência própria.
Risos, abraços, cheiros e essas coisas de gente
mentirosa.
Dentro de uma sacolinha. Onde você carrega os seus?
Andar pra cima e pra baixo com a sacolinha cheia de tempo
morto.
Cheia de coisa. Todas essas coisas como voodoos dos quais eu
só tenho o protótipo.
Todas essas coisas acontecendo em algum outro lugar que
só existe porque eu não estou lá.
Nós não estamos mais lá.