sábado, 13 de agosto de 2016

Carta de Suícidio

Criei um hobby de muito mal gosto: Ler cartas de suicídio.
O tempo que não passo pensando em morrer, passo lendo as últimas palavras de quem decidiu ir.
Eu realmente me interesso por aqueles papéis.
Aquelas canetas, quase sempre azuis. Quase sempre falhando.
Sempre, no meio da caligrafia tremida e dos vincos fortes da caneta rasgando o papel, encontro os detalhes do motivo que levaram aquela pessoa a escolher o descanso. É por isso que me interesso, acredito. Eu leio aquelas linhas tristes, pingadas de água, borradas de sangue e eu sempre encontro o que procuro. Um motivo.
Grandes motivos. Pequenos.
Um anarquista que não quer fazer mais parte desse sistema. Uma mulher que encontrou o marido com outra no carro. Um jovem cuja namorada morreu.
Sempre com muita coragem. Coragem incentivada pela crença em alguma covardia.
Sempre tremendo.
Sempre em um extremo.
Sempre com muita certeza.
Enforcados. Numa boa altura.
Envenenados. Com doses cavalares de veneno de inseto.
Baleados. Com armas automáticas. Dentro do ouvido.
Cortados. Uma lâmina fina rasgando na vertical, sempre na vertical, um braço esquerdo.
Eu não sei se eles choraram. Gritaram. Pensaram na mãe até o último minuto do apuro. O apuro. Você provavelmente não sabe o que é isso.
Chorar no fundo da cabeça, até tudo deixar de fazer sentido. Apertar os dedos e as unhas tão forte na palma da mão até sangrar. Sentir todos os poros do corpo gritarem de uma dor invisível, latente e contínua. Contínua e eterna. Dor eterna. Dor entre os dedos, no pescoço, sobre os olhos. Uma dor pesada. Uma dor bem lenta. Lenta como a espera.
Me questiono quantas pessoas não disseram que tudo aquilo seria passageiro. Que era só se esforçar. Fazer acontecer. “ Isso não é motivo para estar triste!”, consigo ouvir daqui. “Vai dar certo!”, eu escuto. “Eu estou aqui pra ajudar, você vai sair dessa!”, novamente.
O problema do suicídio deve ser - além de estar morto, é claro - não ter o prazer de olhar pra cara de quem acha que fez algo muito grandioso pra te "ajudar a superar" e falar: "Eu te avisei que eu não ia superar."
Sabe? Você não tem esse gostinho. De provar que estava certo.
Tudo é sobre estar certo.
Você, nobre e oportunista leitor, deve estar pensando “ Mariane, você quer se matar?”. E eu digo, Não. Me identificar em alguma escala com esses mortos não me faz uma suicida. Temos uma grande e crucial diferença: Eu tenho apreço pela covardia que é viver.
Deixa eu voltar pras minhas cartas...

sexta-feira, 22 de julho de 2016

"Bons momentos"

O grande problema de guardar os bons momentos que se teve em alguma parte da vida é saber, acima de tudo, que eles estão mortos. Qual a utilidade da lembrança? É sentir, através de uma experiência passada, uma sensação produzida por algo ou alguém [sempre é alguém], que não existe mais. 
Não existe mais.
Não no mesmo lugar que você.
Não existe mais no mesmo sentimento que você.
Não existe mais. 
Morto.
Não existe mais te esperando depois da 00:00.
Não existe mais em um sábado a tarde.
Não existe mais dormindo na sua  cama.
Não existe mais sorrindo.
Morto.  Rindo ou abraçado com alguém que não é você então, morto.
Toda essa morte pode acontecer no exato momento em que você come um pão de queijo, vai por mim. Isso é pra fazer sentido então, se concentre. 
As coisas podem deixar de existir e se tornarem lembrança enquanto você estiver tomando sorvete também.Você precisa se esforçar.
Bom, de qualquer forma, você não pode simplesmente escolher não levar os “bons momentos”.
Eles são como um brinde involuntário e obrigatório de muito mal gosto que a vida te dá.
Você escolheu essa cicatriz aí no braço? Acho que não. “Bons momentos” são a mesma coisa. Não me pergunte qual a sensação de carrega-los. “Bons momentos”, eu já te expliquei, são coisas mortas. Talvez você saiba por experiência própria.
Risos, abraços, cheiros e essas coisas de gente mentirosa. 
Dentro de uma sacolinha. Onde você carrega os seus? 
Andar pra cima e pra baixo com a sacolinha cheia de tempo morto.
Cheia de coisa. Todas essas coisas como voodoos dos quais eu só tenho o protótipo.
Todas essas coisas acontecendo em algum outro lugar que só existe porque eu não estou lá. 
Nós não estamos mais lá.