Tenho um vizinho que é mais insone do que eu.
Ele esbraveja a madrugada inteira. Mais alto do que os gatos briguentos. Mais forte do que os vãos entre um poste e outro.
Ele levanta, sai na varanda com visão privilegiada da minha janela, e simplesmente, grita. Ele grita pro céu, pras árvores.
Esse meu vizinho sobe no palco do manto solene do céu noturno e exerce seu ofício.
Ele comprime todo o protocolo e faz o que ninguém tem coragem de fazer.
Ninguém sabe quem ele é. Ninguém que tome isotônico, ande com cachorro e compre pão as oito da manhã sabe. A noite, talvez.
A noite conhece todo mundo que é capaz de rasgá-la. Afinal, a noite foi feita pra dormir, e alguém que não dorme...bem...todo mundo dorme, eles dizem.
Dizem que você dorme. Eles dizem que noventa e seis porcento das pessoas dormem.
Eles dizem pra você ficar tranquilo e dormir, afinal, é claro que você faz parte desse cálculo.
Esse meu vizinho cumpre o seu compromisso vocal todas as noites, há mais de cinco anos.
Eles dizem que a chance de você ser quatro porcento da população é quase nula. Nula como os próprios quatro porcento.
As vezes, bom, as vezes você tem que pensar na possibilidade de estar na estatística reversa.
As vezes, você pode ser a primeira pessoa depois do noventa e seis.
Esse meu vizinho perdeu seus dois filhos por mortes iguais há seis anos, é o que dizem.
Dizem também que a possibilidade de pessoas da mesma família morrerem da mesma forma, de uma causa que não seja hereditária, é quase impossível.
É nula, eles dizem. Só dois por cento das famílias podem perder seus entes, digamos, que de traumatismo craniano, atropelados por um caminhão.
Esse meu vizinho, porque falar desse meu vizinho? Ele faz parte de zero vírgula zero zero um por cento da população que faz parte da margem de erro das estatísticas.
Esse meu vizinho é mais corajoso do que eu.
Ele está mais vivo do que o cara do isotônico.