Quando isso vai parar eu não sei.
Toda vez que eu piso nesse chão enquanto cada parte do que foi sai rasgando o céu da boca, estourando os dentes, virando meu rosto do avesso, eu não sei.
Os nós dos meus dedos querem doer toda vez que o passado estoura meus dentes e rasga meu céu da boca.
Eu não sei quando eu vou parar de secar meus olhos. Esfregar meus olhos. Cuspir na minha própria cara.
Eu procuro saber mesmo sentindo o pulso das artérias batendo fundo no pescoço, suando fundo pelo pescoço e empapando a gola da camiseta. Isso é tudo nervoso.
Eu nunca sei quando mas sei de alguma coisa quando encaro a lâmina brilhante da 758a e vejo meu rosto do avesso com minha boca distorcida no metálico do brilho mexendo algo como "Cara, eu tô cansada".
Cara, eu tô cansada.
Eu sei só quando quero mastigar meu próprio olho ardido, a boca aberta empurrando ar pra fora pra molhar a cara de água salgada.
Eu não sei quando isso de chorar água salgada, empapando a gola da camiseta, esfregando o nó dos dedos na 758a acontece.
Eu não faço ideia.
Você me deixou pra morrer sozinha.
A história de tudo o que da errado é um negócio que quando vai parar, eu não sei.
Quando esse chacoalhar maldito infinito unânime e eterno da ida e do retorno vai ser menor, eu não sei.
Quando eu vou parar de rir na frente da lâmina e do dente. Quando que o sal do choro vai colar na pele retorcida do meu rosto virado do avesso pelo passado do abraço.
Tá caindo o mundo lá fora, o céu tá rasgando em 12 partes. O céu da boca estronda e a gola da minha camiseta já virou um rio de desgosto.
Eu não faço ideia de quando parar.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Horizontal
Uma vida na
horizontal.
A vida na
horizontal acontece quando você deita.
Mas não é só
um deitar de cansaço.
A vida na
horizontal é aquela onde você só existe quando enverga.
Quando a
madeira molha e entorta. Quando aquela faca vagabunda que você usa pra qualquer
coisa dobra por causa do atrito.
O resto é
hiato.
Você nem
lembra mais como era aquela madeira reta e envernizada. Lisinha e com
propósito. Você nem lembra mais da faca cortando um pão, servindo pra alguma
coisa.
Você só vê
que entorta e é mais ou menos assim que tudo vai passar a funcionar. Torto.
Essa é a
vida na horizontal.
O que
importa é o momento da queda.
O que
importa é quando estraga.
O vertical é
só uma lembrança amarronzada.
A vida não é
a voz do homem bonito na vertical te pedindo pra não piorar as coisas. A vida
é o pulso fechado ralando no colchão pensando que o homem bonito não tem que te
pedir nada.
Você só
deita e a vida é um intervalo entre uma deitada e outra.
É o tamanho
do círculo de lágrima e coriza na fronha do travesseiro.
É a dor que
fica no braço do peso do corpo em cima.
Tudo gira ao
redor da deitada. Tudo caminha pro retorno ao grau 0.
O levantar é
só pra colher mais contexto pra babar de raiva e tristeza em cima do catarro azedo
da deitada anterior no travesseiro.
O Horizonte,
em definição, é uma visão ilimitada do infinito.
A vida na
horizontal é uma visão ilimitada da tragédia.
De um lado
pro outro.
Até ficar de
pé ou até morrer.
segunda-feira, 8 de maio de 2017
Seu Geraldo, Lucas e Iraci
Tudo é sobre nós porque somos absoluta e irrevogavelmente egoístas mas, no final, o que Você e Eu consideramos platéia é, na verdade e também......Nós.
Quer dizer: Tudo é você [ eu ] mas você [ eu ] na verdade é um coletivo de outros que compõe aquilo que você vive.
Não há plateia.
Todos eles somos nós.
Uma parte distribuída e atribuída. Um resquício da linha da nossa vida.
Eu pego o mesmo ônibus, no mesmo lugar, religiosamente, todos os dias úteis da semana a 5 anos. Desde o começo dos 5 anos dos quais pego esse ônibus, convivo pelo menos 20 minutos com Seu Geraldo. Seu Geraldo é um senhor que vende lanches no ponto da volta na parte da noite.
20 minutos por dia.
20 minutos que eu fico em pé, fazendo o que o paulista faz de melhor, fila, esperando o ônibus.
5 dias por semana. A 5 anos.
Seu Geraldo não tem ideia mas conviveu comigo em pelo menos 4 ou 5 momentos de grande importância, os "cracks", na minha vida. Tristes ou saudosos.
Ele é um par de olhos que captura a minha imagem (tanto quanto eu capturo a dele), triste ou alegre.
Nunca alegre. Agitada, talvez.
Eu frequento a mesma pizzaria a uns 7 anos. Uma vez por mês. 4 horas por vez.
O garçom que me atende e serve é sempre o Lucas. Lucas deve ser 4 ou 5 anos mais velho que eu. Lucas já viu, pelo menos uns 6 ou 7 cracks da minha vida.
Lucas me serviu [ e serve ] na alegria e na tristeza.
Lucas não sabe mas, por vezes, foi ele o primeiro a me olhar depois de uma grande crise.
Lucas teve a mão que tirou o copo que eu encarava pensando em qualquer coisa grande ou pequena.
Eu compro um refrigerante [ ou qualquer coisa de por na boca ] a 2 anos e meio, 3 vezes por semana, por uns 10 minutos com Iraci. Iraci tem uma bancada móvel dentro da faculdade.
Iraci já viu uns 3 cracks da minha vida. Iraci foi a pessoa que perguntou pra mim o que eu queria quando minha cabeça partia em zilhões de pedaços e solidão assistida. "Pepsi ou Coca dessa vez?"
Paz, Iraci. Paz.
Eles são parte da longa desgraça.
Você é sua platéia. O que você vê nos olhos dos outros que te veem é o show.
O show da tragédia.
Os outros. Gente que as vezes não sabemos o nome....eles não são os outros. Eles são nós.
Eu olho pra eles e vejo o looping da minha vida. Tragédia. Riso.
Vi os três nesse espaço de dois dias. [Dominho, Segunda. 7/8 de Maio de 2017]
Não existe platéia. Só existe um nós.
Quer dizer: Tudo é você [ eu ] mas você [ eu ] na verdade é um coletivo de outros que compõe aquilo que você vive.
Não há plateia.
Todos eles somos nós.
Uma parte distribuída e atribuída. Um resquício da linha da nossa vida.
Eu pego o mesmo ônibus, no mesmo lugar, religiosamente, todos os dias úteis da semana a 5 anos. Desde o começo dos 5 anos dos quais pego esse ônibus, convivo pelo menos 20 minutos com Seu Geraldo. Seu Geraldo é um senhor que vende lanches no ponto da volta na parte da noite.
20 minutos por dia.
20 minutos que eu fico em pé, fazendo o que o paulista faz de melhor, fila, esperando o ônibus.
5 dias por semana. A 5 anos.
Seu Geraldo não tem ideia mas conviveu comigo em pelo menos 4 ou 5 momentos de grande importância, os "cracks", na minha vida. Tristes ou saudosos.
Ele é um par de olhos que captura a minha imagem (tanto quanto eu capturo a dele), triste ou alegre.
Nunca alegre. Agitada, talvez.
Eu frequento a mesma pizzaria a uns 7 anos. Uma vez por mês. 4 horas por vez.
O garçom que me atende e serve é sempre o Lucas. Lucas deve ser 4 ou 5 anos mais velho que eu. Lucas já viu, pelo menos uns 6 ou 7 cracks da minha vida.
Lucas me serviu [ e serve ] na alegria e na tristeza.
Lucas não sabe mas, por vezes, foi ele o primeiro a me olhar depois de uma grande crise.
Lucas teve a mão que tirou o copo que eu encarava pensando em qualquer coisa grande ou pequena.
Eu compro um refrigerante [ ou qualquer coisa de por na boca ] a 2 anos e meio, 3 vezes por semana, por uns 10 minutos com Iraci. Iraci tem uma bancada móvel dentro da faculdade.
Iraci já viu uns 3 cracks da minha vida. Iraci foi a pessoa que perguntou pra mim o que eu queria quando minha cabeça partia em zilhões de pedaços e solidão assistida. "Pepsi ou Coca dessa vez?"
Paz, Iraci. Paz.
Eles são parte da longa desgraça.
Você é sua platéia. O que você vê nos olhos dos outros que te veem é o show.
O show da tragédia.
Os outros. Gente que as vezes não sabemos o nome....eles não são os outros. Eles são nós.
Eu olho pra eles e vejo o looping da minha vida. Tragédia. Riso.
Vi os três nesse espaço de dois dias. [Dominho, Segunda. 7/8 de Maio de 2017]
Não existe platéia. Só existe um nós.
domingo, 8 de janeiro de 2017
Perdão e a minha cortina
Tão certo quanto o rasgo na cortina do meu quarto é o fato de que eu não fui projetada pra perdoar você. Seja você quem for.
Tão evidente quanto a minha raiva por gente que só conversa comigo pra massagear o ego fodido é o fato de que eu sou incapaz de te liberar da merda que você me fez. Seja ela o que for.
Eu já fui uma pessoa dada ao perdão mas isso agora está tão longe de mim quanto a possibilidade de que a minha cortina se remende sozinha. Não vai acontecer.
Eu te odeio tanto. Ainda bem que você não lê essa merda.
Esse lance de energia...você só pode estar brincando com a minha cara.
E daí que Jesus amou quem estraçalhou a carne das costas dele? E eu com o fato de que o Papa João Paulo II perdoou quem deu um tiro nas tripas dele?
O que eu deveria fazer? Premiar o injusto? Não me diz que você acha tudo isso minimamente certo.
É um belo teatro, admito. Mas, falso. Tão falso quanto a minha vontade de pegar a agulha e costurar o rasgo da minha cortina.
Perdão é premiar a injustiça.
E daí que quem "sofre" é quem não perdoa?
"Não perdoar faz com que você tenha câncer". Pois bote esse câncer e o sofrimento tudo junto na conta de quem cometeu o ato.
As pessoas ferem porque sabem que isso é premiado mais tarde com o perdão. A culpa é de quem fez isso comigo. Com você.
"Eu errei mas me arrependo."
Que pena. Não errasse.
A pena que eu tenho de você é menor do que o buraco da agulha que eu passo a linha preta que vai costurar o arrombo da minha cortina.
Além da injustiça eu deveria deixar a pessoa viver sem nenhum tipo de punição?
Quer dizer então que se cospe na cara das pessoas e mesmo assim se espera que tudo esteja bem depois de uma semana?
Bom...pode acontecer. Tanto quanto eu acertar a ordem certa dos pontos que precisam ser dados no buraco da minha cortina. Comigo não.
A falha faz do ódio o juiz eterno.
Eterno, tanto quanto o buraco amarrado de linha da minha cortina que nunca mais será a mesma.
Eu nunca vou perdoar você e isso é culpa sua.
Tão evidente quanto a minha raiva por gente que só conversa comigo pra massagear o ego fodido é o fato de que eu sou incapaz de te liberar da merda que você me fez. Seja ela o que for.
Eu já fui uma pessoa dada ao perdão mas isso agora está tão longe de mim quanto a possibilidade de que a minha cortina se remende sozinha. Não vai acontecer.
Eu te odeio tanto. Ainda bem que você não lê essa merda.
Esse lance de energia...você só pode estar brincando com a minha cara.
E daí que Jesus amou quem estraçalhou a carne das costas dele? E eu com o fato de que o Papa João Paulo II perdoou quem deu um tiro nas tripas dele?
O que eu deveria fazer? Premiar o injusto? Não me diz que você acha tudo isso minimamente certo.
É um belo teatro, admito. Mas, falso. Tão falso quanto a minha vontade de pegar a agulha e costurar o rasgo da minha cortina.
Perdão é premiar a injustiça.
E daí que quem "sofre" é quem não perdoa?
"Não perdoar faz com que você tenha câncer". Pois bote esse câncer e o sofrimento tudo junto na conta de quem cometeu o ato.
As pessoas ferem porque sabem que isso é premiado mais tarde com o perdão. A culpa é de quem fez isso comigo. Com você.
"Eu errei mas me arrependo."
Que pena. Não errasse.
A pena que eu tenho de você é menor do que o buraco da agulha que eu passo a linha preta que vai costurar o arrombo da minha cortina.
Além da injustiça eu deveria deixar a pessoa viver sem nenhum tipo de punição?
Quer dizer então que se cospe na cara das pessoas e mesmo assim se espera que tudo esteja bem depois de uma semana?
Bom...pode acontecer. Tanto quanto eu acertar a ordem certa dos pontos que precisam ser dados no buraco da minha cortina. Comigo não.
A falha faz do ódio o juiz eterno.
Eterno, tanto quanto o buraco amarrado de linha da minha cortina que nunca mais será a mesma.
Eu nunca vou perdoar você e isso é culpa sua.
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