quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Horizontal

Uma vida na horizontal.
A vida na horizontal acontece quando você deita.
Mas não é só um deitar de cansaço.
A vida na horizontal é aquela onde você só existe quando enverga.
Quando a madeira molha e entorta. Quando aquela faca vagabunda que você usa pra qualquer coisa dobra por causa do atrito.
O resto é hiato.
Você nem lembra mais como era aquela madeira reta e envernizada. Lisinha e com propósito. Você nem lembra mais da faca cortando um pão, servindo pra alguma coisa.
Você só vê que entorta e é mais ou menos assim que tudo vai passar a funcionar. Torto.
Essa é a vida na horizontal.
O que importa é o momento da queda.
O que importa é quando estraga.
O vertical é só uma lembrança amarronzada.
A vida não é a voz do homem bonito na vertical te pedindo pra não piorar as coisas. A vida é o pulso fechado ralando no colchão pensando que o homem bonito não tem que te pedir nada.
Você só deita e a vida é um intervalo entre uma deitada e outra.
É o tamanho do círculo de lágrima e coriza na fronha do travesseiro.
É a dor que fica no braço do peso do corpo em cima.
Tudo gira ao redor da deitada. Tudo caminha pro retorno ao grau 0.
O levantar é só pra colher mais contexto pra babar de raiva e tristeza em cima do catarro azedo da deitada anterior no travesseiro.  
O Horizonte, em definição, é uma visão ilimitada do infinito.
A vida na horizontal é uma visão ilimitada da tragédia.
De um lado pro outro.

Até ficar de pé ou até morrer.