Uma vida na
horizontal.
A vida na
horizontal acontece quando você deita.
Mas não é só
um deitar de cansaço.
A vida na
horizontal é aquela onde você só existe quando enverga.
Quando a
madeira molha e entorta. Quando aquela faca vagabunda que você usa pra qualquer
coisa dobra por causa do atrito.
O resto é
hiato.
Você nem
lembra mais como era aquela madeira reta e envernizada. Lisinha e com
propósito. Você nem lembra mais da faca cortando um pão, servindo pra alguma
coisa.
Você só vê
que entorta e é mais ou menos assim que tudo vai passar a funcionar. Torto.
Essa é a
vida na horizontal.
O que
importa é o momento da queda.
O que
importa é quando estraga.
O vertical é
só uma lembrança amarronzada.
A vida não é
a voz do homem bonito na vertical te pedindo pra não piorar as coisas. A vida
é o pulso fechado ralando no colchão pensando que o homem bonito não tem que te
pedir nada.
Você só
deita e a vida é um intervalo entre uma deitada e outra.
É o tamanho
do círculo de lágrima e coriza na fronha do travesseiro.
É a dor que
fica no braço do peso do corpo em cima.
Tudo gira ao
redor da deitada. Tudo caminha pro retorno ao grau 0.
O levantar é
só pra colher mais contexto pra babar de raiva e tristeza em cima do catarro azedo
da deitada anterior no travesseiro.
O Horizonte,
em definição, é uma visão ilimitada do infinito.
A vida na
horizontal é uma visão ilimitada da tragédia.
De um lado
pro outro.
Até ficar de
pé ou até morrer.
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