segunda-feira, 24 de setembro de 2012

expressão exata

Naquela manhã de declínio de domingo, num vagão em movimento cheio de almas paradas, ele se balança num frenesi eterno, pra frente  e pra trás.O sangue lhe escorre pelo nariz desobstruído, atingido por uma mão nervosa, ou pelo torpor de uma droga qualquer. Nunca se saberá.
Você teria levantado! me acusa a vergonha. Mas eu não levantei.
O quase não me serve de nada, muito menos de conselho.
Ninguém se inclinou para conter os espasmos, a não ser sua própria mão esmorecendo a cada arrastar no osso nasal. Nesse domingo, a dor soava mais alto do que o ranger constante das rodas no trilho.
Era impossível distinguir homem e agonia. Um aglomerado carnal cheio de sentimento.
Eu não levantei para ajudá-lo.
Todos debaixo da terra que passava rápida pelo vidro grosso das janelas, ignoravam as gotículas que pingavam barulhentas no chão emborrachado. Ao menos tentavam sugerir algo mentalmente, mas nenhuma das almas esbossava qualquer ação eminente.
Inclinando o corpo em dois pólos, num movimento hipnótico. Pra frente e pra trás, numa mistura de muco, sangue, lágrimas e mãos desorientadas, eu o via.
Eu não levantei para ajudá-lo.
Quem apanhou mais nesse domingo caótico?
Será que ele morreu, ou esse fardo foi roubado pelo meu senso? Me pergunto, até agora.

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