Enquanto o amor da sua vida famigera e mastiga um naco do seu cérebro, você só tem olhos pra tinta descascando na parede da casa que dá pra ver da sua janela. Um fio de eletricidade semi-morto. Um gato pulguento.
Enquanto os cartões de créditos explodem no bolso das pessoas, que explodem coisas por explodirem cartões de créditos, você brinca com uma tampinha de caneta.
No intervalo de tempo em que você nota o muro sujo e encontra um tubo sem tinta, dez mil pessoas choraram, cinco mil tiveram uma epifania e cem deram um sorriso amarelo pra alguém.
Uma epifania, e você bolando qual o fio vermelho que explode caso uma descarga de alta voltagem acompanhada de chuva, toquem no mesmo milésimo de segundo, a fiação elétrica. Se a chuva for ácida, todo mundo morre.
No mesmo poste, tem uma pessoa amada que pode ser trazida em três dias e um vaso sanitário que pode ser desentupido.
É a mesma coisa, só que ao contrário.
São tantas formas de se distrair, que se admira prestar atenção em algo, como por exemplo uma formiga tentando levar um grão de arroz.
Enquanto um engravatado rouba seu imposto que não existe a não ser que seja roubado, você fica dez minutos olhando uma pipa no céu.
Enquanto tudo isso acontece, o gato ronrona, e tem uma pessoa sorrindo pra você. Faltam só noventa e nove agora.
Mas tudo é legal.
Meu vaso anda muito bem e a minha pessoa amada degusta o agridoce da minha massa cinzenta totalmente despreocupada com coisas que não sejam eu mesma.
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