Tem dia que só dá pra sofrer.
Ele pega em um estojo de canetas e percebe a desgraça nas manchas de mofo cobrindo o couro preto como pomada em bunda de neném.
Uma camada lisinha, diametralmente perfeita e verde.
Verde mofo.
'Mas mofo só não cresce em comida?', ele pergunta dentro da cabeça.
'Acho que eu acostumei com o cheiro'.
Acostumado.
Tem aquele exemplo que todo mundo usa pra enfeitar qualquer conversa sobre se acostumar: O sapo e a panela de água quente.
'Ele serve bem', ele pensa. O exemplo. A história do sapo e da panela fervendo.
Você sabe, certo?
'Todo mundo já ouviu essa história de algum velho que goste de livros de auto-ajuda ou de alguma professora que leia Augusto Cury', na cabeça.
Quando você joga o sapo em uma panela fervendo, ele pula. Diferente de você colocar o sapo em uma panela com água fria e ir aumentando a temperatura aos poucos. O sapo se acostuma e não repara a água esquentando e quando percebe já está fervendo quase morto.
Então, é exatamente isso.
O quarto inteiro tem uma película de fungo em cima de coisas como roupas. Coisas como livros. Coisas como uma casca de mamão comido.
O sapo na água fresquinha.
Aquelas bolinhas pequenas e médias criando crostinhas verdes, fazendo desenhos.
'Eu durmo aqui todos os dias, cara', dentro da cabeça.
Mofo é fungo. Fungo são decompositores.
'Quando que isso começou a brotar aqui?', na cabeça.
Milhares de decompositores. Decompositores decompondo o cômodo todo.
Ele só entende como chegou nesse estado pensando no exemplo podre do sapo.
'Tem eu e o sapo', na cabeça.
A médica disse que faz parte do processo.Não tem produção de serotonina. Às vezes nem banho você consegue tomar, quem dirá pegar desinfetante pra esfregar ladrilho de chão.
''Mas que merda de metáfora é essa?', na cabeça.
Ele não limpa o quarto há dias porque tem vezes que só dá pra querer morrer.
'Eles estão me decompondo', na cabeça.
O sapo nadando morninho.
O fungo vai 'comendo' resíduo.
Tudo o que o fungo come já foi vivo antes de estar pronto pra ser comido.
Mofo sobe em cima de cadáver.
'Eu sou um residuo', dentro da cabeça.
A água ficando quentinha, o sapo tranquilo morninho.
O travesseiro fede. O ar é vinagrento.
'Pronto pra terminar de ser morto', na cabeça.
Ele passa mais da metade do dia dentro de um quarto que parece abrigar um morto.
Um morto que esfrega as mãos.
O sapo cozinhando.
'Esse fungo só tá esperando eu parar de me mexer por mais de 15 horas.' na cabeça.
O sapo derretendo.
Mas tem dias que só dá pra socar a parede até a pele em cima do ossinho metacarpo sangrar.
O sapo grudando no metal da panela evaporando água.
'Eu tô enterrado no meio do mofo', na cabeça.
O mofo vai comendo só aquilo que está em decomposição.
O sapo dissolvido, afogado na própria pele. Borbulhando. Morto
Ele deitado. Dissolvido.
'Tem dia que não dá pra ficar na água fria', na cabeça.
Borbulhando.
Já foi vivo agora não vive mais.
Afogado.
'Daqui a pouco esse mofo sobe em cima de mim', na cabeça.
Borbulhando.
'Eu sei qual é a desse sapo filha da puta', na cabeça.
A água já evaporou há muito tempo.
'Eu e o sapo', na cabeça.
Morto.
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